sexta-feira, 8 de abril de 2011

Todo mundo em silêncio e de castigo

Quinta-feira, 7 de abril de 2011.

Numa manhã aparentemente normal, pais levaram seus filhos para a escola. 

A ideia desses trabalhadores é tentar dar um futuro melhor para essas crianças, tirá-las das ruas, livrá-las da bandidagem cada vez mais frequente, que nos torna reféns de nós mesmos a cada dia.

O problema é que nem tudo acontece como é planejado. Um psicopata invade a escola e, sem motivos aparentes, termina, na hora, com a vida de 12 crianças inocentes e, a longo prazo, com outras. Afinal, o que comentar do trauma dos sobreviventes?

Ao ler relatos de crianças e professores da escola é que se pode ter uma mínima noção do que aconteceu naqueles minutos intermináveis.

De uma hora para outra, ouviu-se disparos e, nesse momento, são várias as reações. Correr, gritar, chorar, desesperar, rezar? Fazer isso tudo ao mesmo tempo? Não é possível prever as reações, elas fogem do controle de qualquer um.

Crianças atingidas, crianças ameaçadas, professores que não podem fazer nada de extraordinário para proteger seus alunos, afinal, além de se salvarem, tinham que tentar controlar a situação de turmas inteiras.

Nessas horas, cada um faz o que vem à cabeça. Corre sem rumo, sem pensar. Alguns caem, tropeçam naquelas vítimas que já estão no chão, escorregam no sangue de colegas que há pouco estavam contando histórias no pátio, antes de subirem para as salas. Caos.

Enquanto isso, o criminoso está lá, impiedoso, com duas armas em punho, com uma habilidade inacreditável, com uma ação inexplicável.

Por que fazer isso? O que passa na cabeça de uma pessoa como essa? Tirar a vida de crianças que ele nunca viu na vida, pessoas que nunca fizeram nada contra ele?

Será culpa do bullying? Será culpa do computador que permitia o acesso a qualquer informação que pesquisasse? Será culpa de uma possível família ausente? Culpa de um governo omisso?

Nada justifica.

Há relatos de que o assassino foi massacrado na infância por seus colegas de classe. Era tido como o ‘patinho feio’ da sala, aquele que sempre era alvo das zoações. Isso serve de explicação?

Matar meninas, já que aquelas de sua época eram as principais causadoras de sua falta de autoestima, é uma solução aceitável?

Não dá para entender, não dá para acreditar, não para aceitar.

E o pior ainda é saber que ele estava fadado a cometer uma atrocidade a qualquer preço. Várias notícias contam os planos que ele tinha de sequestrar um avião, de atacar o Cristo Redentor.

Não é possível cobrar segurança da escola. O maníaco era um ex-aluno e qualquer desculpa relativamente real o faria entrar ali.

Não é culpa instantânea do governo. O problema é muito maior que o assassino ter conseguido as armas.

Não é culpa dos pais dele, que não estão mais entre nós, mas, se estivessem, morreriam de desgosto. Afinal, qual seria o sentimento de ver um filho, principalmente adotivo, fazer isso?

Afinal, alguém sabe de onde vem a culpa?

Para piorar, é triste ver a exploração do drama alheio com âncoras da televisão brasileira. Que a expressão ‘âncora’ não seja interpretada como a definição jornalística, mas de um jeito literal, de um objeto que afunda e não permite o desenvolvimento (de uma sociedade, no caso). Para exemplificar, dois nomes que dispensam comentários: Sônia Abrão e Ana Maria Braga, que fizeram da tristeza dos outros, matérias explícitas de sofrimento, em busca de pontos de audiência.

E daqui para frente? Como ficarão as crianças que presenciaram esse filme de terror ao vivo, que foram coadjuvantes dessa história que ninguém queria ter visto?

O que podemos fazer para evitar isso? Você que cria seu filho para ser o mais popular e o mais respeitado da turma, a qualquer preço, está na hora de começar a rever seus conceitos. Aquela velha máxima de ‘não traga desaforo para casa’ deve ser tida como conselho diário para as crianças? Incentivar seu filho a não aceitar provocações, mas provocar para mostrar que é homem ou que é uma mulher esperta e respeitada é mesmo válido?

Muitas perguntas, muitas reflexões, poucas respostas.

Um desorientado calou um país. Matou famílias. Deixou milhares de brasileiros em silêncio, sem reação, de castigo. 

7 comentários:

  1. Muito bom o texto....bom mesmo!
    E nem tem mesmo o que dizer...esse castigo vem há tempos...nos assombra em prisões domiciliares, em carros fechados, no medo.
    ...

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  2. Complicado pensar nesse fato, são tantas vertentes envolvidas. Tantas famílias, tantas crianças... Confesso que fiquei imensamente abalada, triste mesmo... Abalou uma sociedade inteira. Realmente "Deixou milhares de brasileiros em silêncio, sem reação, de castigo. "

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  3. Queria ressaltar, que hoje após crimes assim, muitos falam sobre o desarmamento, mas qndo ouvo um referendo para q votassemos a favor do desarmamento, nos votamos contra ele, nos tbm somos um pouco culpados de muito q acontece hj...

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  4. É, esse tipo de coisa, é praticamente impossível prever, isso aconteceu nos EUA, na Alemanha, etc, países de sistema educacional invejável, países onde se é fácil comprar armas, países onde estrutura familiar é exemplar, mas por que esse tipo de coisa acontece lá?
    Estão buscando os motivos para isso acontecer, talvez conheçamos os culpados, tudo é culpado, é um ambiente que se cria e leva ao desenvolvimento de personalidades doentias, uma criança que se recusa a se inserir em um grupo de amigos na escola, tem que ser entendida, tem que ser trabalhada, saber pq ela se esconde do mundo, o que a leva a fugir ou a se proteger, a falta de informação da família, qual família está preparada para lhe dar com isso, como se faz para identificar padrões estranhos que podem levar a atos assim? Na tv, na internet, etc, as informações que são jogadas levam cada vez mais a formação de psicopatias, seja referente a atitudes violentas, seja a atitudes consumista, estáticas, etc.

    O sim dado pela população no referendo de 2003 para o desarmamento, ficou sentido, como uma ferida que vai jorrar sangue por muito tempo, é claro que não vamos dizer que o sim foi errado, até pq as armas foram compradas num esquina qualquer, tentar comprar uma arma de forma legal para ver se consegue, mas comprar de forma ilegal é muito fácil, então fica a questão, foi pelo sim do referendo ou pela falta de combate a venda de armas ilegais?

    Tentam buscar motivações religiosas, motivações de pressões sofridas na escolar, será que algum já parou para pensar que o fato de a maioria das crianças mortas tenha sido meninas não esteja relacionado ao fato de que, normalmente, são meninas que sentam nas primeiras filas, o que as tornariam alvos claros, um cara que entrou atirando e sala de aula, com certeza acertaria primeiro quem estava nas primeiras filas, logo, pode se imaginar essa razão para o número de meninas mortas serem mais alto, o que eliminaria alguma perseguição.

    Não sei o que pensar mais, é claro que num dá para criar um ambiente de pânico, de medo, mas de tristeza sim, é um fato isolado, que acho que deve ser tratado como de saúde pública e não policial.

    Uma coisa eu acho que é certa, é preciso dar atenção as pessoas mesmo que elas não queiram ser vistas, ficam meus lamentos pelas vidas das crianças que se foram, fica meus lamentos também pelo assassino que não passa de um inocente que foi transformado em um monstro ao ser jogado nesse mundo, é preciso da atenção as pessoas, para que comportamentos estranhos possam ser tratados de cedo.

    Família e escola são saídas para que fatos assim ou similares não tornem a acontecer.

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  5. Concordo com um pouco do que cada um disse, mas acredito que uma frase do leitor 'Freitas' pode (e deveria) ser mesmo a solução para isso tudo:

    'Família e escola são saídas para que fatos assim ou similares não tornem a acontecer.'

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  6. Sabe, penso que hje tdo é mto liberado, os filhos, na maioria da vezes são autoritários,antigamente os Pais, tinham, direito de chamar a atenção e dar umas boas palmadas, hje isso é proibido, tdo é psicólogo, psicoterapeuta,apanhei qdo criança, começei a trabalhar c/ 13 anos, e nunca deixei de amar meus Pais, Pé de galinha n/ mata pinto. A mídia, os nossos governantes estão tirando a nossa autoridade, hje os JOVENS, pensam que podem tudo, que são Super-Herois. Muitas das vezes n/ é culpa dos Pais, as vezes o filho já nasce tbem c/ má índole. EU SEI DE UMA COISA, SÓ VAI HAVER PAZ QUANDO HOUVER JUSTIÇA. Tá tudo errado, precisamos consetar mtas coisas, principalmente punindo estes jovens bandidos, como adulto, precisamos de penas mais severas, os menores acham que estão c/ a BOLA TODA, chega, tá na hora da mudança, antigamente isso n/ existia, porque os Pais eram mais enérgicos, tinham mais voz ativa, hje é tdo mto fácil, eu mato, roubo, assalto e qdo completo maior idade, é como se n/ tivesse feito nada, fica limpo, isso é uma vergonha, chega de jovem Bandido e Coitado, pq ELES sabem dos direitos q/ tem, mas esquecem dos deveres, chega cansei, desses marginais mirins grandões, que na maioria das vezes dá 3 da gente. Se eles podem votar, podem tbem assumir seus erros, sem ter a ficha limpa após os 18 anos.

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  7. Um texto ótimo que nos leva a pensar muito mais além. Será que realmente pensamos/refletimos sobre a criminalidade como um todo nos últimos tempos?

    Além de toda forma de violência existente na sociedade atual, sendo explicada por fatores diversos: meio social, tendências biológicas, tendência bio-psico-social,etc, há ainda que se pensar em muito mais.

    Digo isso, porque acredito, particularmente, que ao mesmo tempo em que meios de comunicação transmitem as informações e conhecimentos necessários, eles também se tornam um espelho, já que muitos crimes são divulgados e acabam dando ideias, permitindo criar e "aperfeiçoar" tantos outros atos de delinquência.

    É estranho pensar que antes, um pouco antes, cronologicamente dizendo, talvez, 20, 30 anos atrás, a violência era um pouco menor.

    Quem é das décadas de 70/80 ainda pôde brincar nas ruas: pique-esconde, pique-pega, etc. E hoje? Difícil, quase impossível!

    Existem mil e uma formas de se tentar evitar a violência: carros blindados, cercas elétricas, alarmes, rondas noturnas,câmeras, etc. Mas da mesma forma que a inteligência humana cria meios de proteger o homem, esse próprio ser também cria mil e uma formas de tornar sem efeito todos esses meios.

    Além disso, a violência está também dentro de casa, vide caso Isabela Nardoni e Suzane von Richtofen.

    Acho que estamos vivendo uma época em que é preciso zelo, carinho, cuidado e principalmente reflexão para retornarmos aos valores, às bases sólidas como família e religião/religiosidade.

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