Quarta-feira
à noite. É hora de voltar para casa após um dia de trabalho e de uma tentativa
de descanso praticando – ou tentando praticar - um esporte. Ônibus.
Depois
de alguns minutos, hora de embarcar, pagar a passagem, assentar-se. Descanso e
pensamentos aleatórios, tentativas – muitas em vão – de fugir de acontecimentos
da rotina. Nova parada. Pessoas diferentes entram no ônibus, os pensamentos
somem. Observação.
Dois
amigos entram. Perdido em pensamentos, é feita uma tentativa de prestar um
pouco mais de atenção na cena. Eles são diferentes, não vestem jeans, tênis ou
sapatos casuais, sociais. O sapato parece ser de fabricação artesanal, de
tecido e pintura manual. Calça de tecido bem leve e camiseta. Mochila grande
nas costas.
Teríamos
voltado aos anos 60? Será que, devido ao cansaço, teria entrado em outro
ônibus? Conferência. O ônibus estava certo. Os rapazes passam e se acomodam na
parte de trás do veículo. Começam a conversar.
-
Hoje em dia as pessoas trabalham para morrer. Trabalham, recebem o dinheiro e
compram o quê? Coca-Cola! Aquilo é cheio de química, conservantes, corantes,
acidulantes...
Seriam
eles rebeldes ou seguidores de uma nova doutrina e queriam atrair discípulos? A
partir deste momento, quaisquer pensamentos diferentes deram lugar à uma
inquietação que tentava entender um pouco mais aquela forma de pensar.
Curiosidade? Talvez.
-
Não entendo o que as pessoas fazem com o seu dinheiro. Por causa desse
capitalismo que o mundo está desse jeito. Cara, ganho a bolsa do estágio e
consigo juntar uma grana! Não é preciso torrar dinheiro. Recebo uns quinhentos e
oitenta reais. Dá e sobra. Todo mês junto uma boa grana. O povo tinha que parar
de gastar dinheiro com qualquer coisa e comprar comida natural, beber suco no
lugar desses refrigerantes. Meu dinheiro é gasto no sacolão. Eles não vêem que
estão sendo mortos aos poucos.
-
Concordo cara... Culpa do sistema.
-
Tipo, já to no estágio há um tempo, não to sabendo mais o que fazer com a grana
que tô juntando. Fico imaginado esses vereadores que já ganham doze pau e ainda
querem aumento de salário. Pra que? Onde enfiam tanta grana?
A
surpresa com a valorização dos quinhentos e oitenta reais inibiu qualquer
olhar para o lado em busca da reação dos outros. Em meio às tentativas
de entender o pensamento dessas pessoas em 2012, um questionamento veio à tona:
afinal, o que é ser feliz? Como a felicidade pode ser tão diferente para
pessoas dentro de uma mesma cidade, de uma faculdade, de um ônibus?
Na
certeza de que não é década de 60, o celular é retirado do bolso e a
inquietação é compartilhada em uma rede social digital:
Afinal,
o que é ‘ser feliz’ para você?
Todo o processo de publicação da pergunta foi acompanhado por olhos
atentos de uma garotinha de 3 – 4 anos, que usava óculos insuficientes para
esconder a pergunta silenciosa: ‘posso mexer?’.
Viver com R$ 580 e ainda conseguir "juntar uma grana"? Eu quero ter aulas de finanças com este camarada.
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