Não se fala em outra coisa essa semana: todo mundo
está comentando sobre o maior evento de música do planeta, o Rock’n’Rio.
Os comentários são diversos, mas a maioria é
implacável: o que Cláudia Leitte foi fazer nesse evento? Por que chamaram Ivete
Sangalo para um festival de rock?
A resposta, ao certo, ninguém sabe. Seria
marketing? Se fosse, que marketing é esse que vai de encontro à opinião da
maior parte das pessoas?
Críticas, insultos, xingamentos diversos, vaias!
Esse conjunto de expressões tomou o lugar dos comentários favoráveis ao
espetáculo. Shows de ‘rock de verdade’ não foram tão comentados quanto a
performance ‘Madonna Made in Bahia’.
A principal justificativa [e clichê] foi literal:
“Rock’n’Rio” é um evento de rock. Não é micareta.” Faz todo o sentido.
Contudo, se uma observação menos superficial for
feita, poderá chegar à conclusão de que o ‘Rock’n’Rio’ é, hoje, muito mais uma
marca comercial que um evento de um gênero musical específico.
Em 2004, por exemplo, o Rock’n’Rio foi em Lisboa,
Portugal. Não mudaram o nome. Coisa de português? Quatro anos depois, foi um
evento simultâneo em duas cidades europeias: Lisboa e Madrid. Onde ficou o Rio
nisso tudo?
O problema é que brasileiro gosta de reclamar.
Compra o ingresso para um espetáculo cujas bandas são anunciadas e mesmo assim
reclama. Vai a um evento grandioso, com várias atrações, mas prefere se reunir
em frente a um palco onde se apresenta uma artista nacional para vaiá-la e, com
isso, mostrar que é um cidadão de ‘opinião formada’.
Na mesma noite, o mesmo público que vaiou a
estagiária da Madonna assiste ao show de uma cantora pop criada pela indústria
musical estrangeira. Entretanto, o simples fato de não ser brasileira já a
torna isenta de qualquer crítica, mesmo não tendo a voz de uma cantora de rock,
tampouco uma postura que faça seu show lembrar um evento do gênero.
Falta bom senso.
Criticar as cantoras é um tanto quanto leviano.
Obviamente, elas abusam da boa vontade de público com suas apresentações de
trio elétrico. Porém, no lugar delas, com o cachê que devem receber, quem
recusaria?
Declarações do tipo ‘Não vou cantar rock para conquistar o público’ também são desnecessárias, uma vez que não mudar o estilo pode ser questão de personalidade, mas, ao mesmo tempo, desafiar o público e ter excesso de autoestima pode ser combustível para um coro de vaias.
Dessa
forma, faltou bom senso aos organizadores do festival, que são os responsáveis
pelos contratos assinados com os artistas. Faltou planejamento na distribuição
dos shows a cada dia e em cada palco.
O
evento já está acontecendo, não tem como mudar nada, ou melhor, o público pode
mudar sua postura valorizando um pouco mais daquilo que é do seu país, nem que,
para isso, deixe de ficar na frente do palco nessas apresentações.
O
momento de questionar as atrações do festival já passou para o Rock’n’Rio 2011.
Agora, para fazer o evento voltar às suas origens, é necessária uma crítica
mais forte do público já no início dos comentários referentes ao próximo
espetáculo. Caso contrário, o jeito será voltar com todos os clichês para
questionar a participação do Calypso, MCs e demais ‘artistas populares’ do
nosso país.
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